CEstA Dupla com Luciana Costa e Rosalvo Ortiz
29/10/2026, às 17h30


Luciana Alves Costa
Luciana Alves Costa é graduada em Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), mestra em Arqueologia pela Universidade de São Paulo (USP) e doutoranda na mesma instituição. Desde a graduação, desenvolve pesquisas em arqueologia do cangaço com foco nas vivências femininas e em arqueologia da diáspora africana em colaboração com comunidades quilombolas.

Arqueologia e territorialidade na Fazenda e Olaria Carmo: entre ancestralidades negras e indígenas
A Fazenda e Olaria Carmo, situada no município de Rosário, no Maranhão, configurou um dos empreendimentos mais rentáveis da primeira metade do século XIX. Pertencente aos padres carmelitas, possuía uma olaria dedicada à produção de tijolos e telhas centrada no uso de mão de obra escravizada. Após a abolição da escravidão, o território passou a integrar o patrimônio do Estado do Maranhão. Recém-libertos, os ex-escravizados da "Santa" passaram a aquilombar essas terras, constituindo as comunidades quilombolas Laje e Canjembre. Ali, deram continuidade a modos de vida tradicionais, orientados por suas próprias cosmopercepções de vida, cujas materialidades evidenciam confluências entre negros e indígenas. Os relatos de viajantes, a historiografia, a oralidade, as tecnologias e a presença de um sítio arqueológico pré-colonial ampliam as possibilidades de investigação dessas articulações na Fazenda e Olaria Carmo. Em Rosário, às margens do rio Itapecuru, viviam povos indígenas cujas trajetórias históricas também envolveram processos de etnogênese nas interações com grupos africanos. A pesquisa de doutorado busca compreender essas relações a partir da ampliação das análises iniciadas no mestrado, que envolveram o estudo e a sistematização de conhecimentos sobre território, territorialidade e suas gentes. Nesta etapa, pretende-se aprofundar a análise através de escavações arqueológicas, do desenvolvimento do método autoarqueológico, que considera o pertencimento da pesquisadora ao território, e da análise de documentação primária. Esta apresentação visa compartilhar os resultados alcançados e discutir perspectivas futuras com os pares, contribuindo para o desenvolvimento da pesquisa e para a compreensão do colonialismo e da territorialidade de povos tradicionais no Maranhão. Nesta etapa, pretende-se aprofundar a análise através de escavações arqueológicas, do desenvolvimento da autoarqueologia como método, visto que a pesquisadora responsável também ocupa o lugar de descendente do território, e da análise de documentação primária. Diante disso, esta apresentação visa compartilhar os resultados alcançados e discutir perspectivas futuras com os pares, contribuindo para o desenvolvimento da pesquisa e para a compreensão do colonialismo e da territorialidade de povos tradicionais no Maranhão.

Rosalvo Ortiz
Especialista em Indigenismo da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), lotado na Coordenação-Geral de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (CGIIRC/DPT). Doutorando em Arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), desenvolve pesquisa na interface entre Arqueologia e Museologia, com atenção às materialidades, territorialidades e conhecimentos indígenas em contextos de povos indígenas em situação histórica de isolamento. É também doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde pesquisa as políticas indigenistas voltadas a esses povos na Amazônia brasileira, analisando as relações entre Estado, indigenismo, tutela, autodeterminação e produção da alteridade indígena, com ênfase na política de não contato, proteção territorial, governança das terras indígenas e garantia de direitos.
 
Arqueologia em território de povos indígenas em situação histórica de isolamento da Amazônia brasileira: dilemas e perspectivas
Esta pesquisa discute os desafios colocados à arqueologia diante da presença de sítios arqueológicos e diferentes materialidades em territórios de povos indígenas em situação histórica de isolamento na Amazônia brasileira. A reflexão considera contextos arqueológicos de longa duração, incluindo cavernas, sítios de arte rupestre, antigos assentamentos, cemitérios e solos antrópicos, bem como artefatos cerâmicos e líticos que podem integrar diferentes temporalidades e histórias de ocupação. Ao lado dessas evidências, incorpora materialidades contemporâneas, como tapiris, quebradas e outras marcas recentes de presença e uso do território, problematizando as diferentes temporalidades e histórias indígenas inscritas nesses contextos. Nesse ínterim, a arqueologia enfrenta o desafio de interpretar diferentes ocupações sem produzir associações automáticas entre vestígios antigos e povos atualmente em circunstância não convencional, reconhecendo a complexidade das histórias indígenas e das transformações territoriais. O estudo também aborda a identificação, documentação, pesquisa e proteção desses contextos, considerando os limites impostos pela política de não contato e os riscos decorrentes da exposição de informações sensíveis sobre territórios indígenas. Inclui-se, ainda, a problemática das coleções de objetos atribuídos a povos indígenas isolados, considerando sua origem, procedência e circunstâncias de coleta, incluindo quando, onde, por quem e em que contexto foram retirados de seus territórios, bem como os desafios relacionados à sua guarda, pesquisa, exposição e acesso. Nesse transcurso, destaca-se a necessidade de articulação com a política indigenista, instituições públicas, universidades, organizações indígenas e outras entidades representativas, de modo que ações de pesquisa e proteção sejam construídas de forma institucionalmente responsável e em consonância com os protocolos de proteção dos povos indígenas que recusam a dita “civilização”. Em diálogo com os conhecimentos indígenas sobre território e materialidade, propõe-se repensar categorias arqueológicas que separam rigidamente passado e presente, sítio e território, vestígio e presença, bem como problematizar os regimes institucionais que transformam objetos indígenas em coleções dissociadas de seus territórios, histórias e relações. Portanto, a arqueologia em territórios de povos indígenas isolados é apresentada como um campo que exige novos cuidados metodológicos, éticos, institucionais e políticos, articulando a profundidade histórica desses territórios, a proteção das materialidades contemporâneas e a reflexão crítica sobre coleções museológicas.
 
Atividade presencial
Entrada gratuita, sujeita à limitação do espaço
Não há inscrições
 
Sede do CEstA: Rua do Anfiteatro, 181, Colmeia - Favo 8
Cidade Universitária, São Paulo-SP
Instagram: cestausp
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