Valéria Mendonça de Macedo

Enredos de adoecimento e tramas terapêuticas em instituições de saúde indígena em São Paulo

​​​​​​​Valéria Mendonça de Macedo

A pesquisa parte de uma experiência etnográfica na CASAI-SP (Casa de Apoio à Saúde Indígena de São Paulo), instituição federal do Subsistema de Saúde Indígena que proporciona estadia para pacientes indígenas oriundos de diferentes regiões do país, faz o agendamento e o acompanhamento em consultas e exames, bem como fornece cuidados de enfermagem. Frequentei a instituição entre o segundo semestre de 2014 e o primeiro semestre de 2018, quando pude conviver e conversar com funcionários, pacientes e acompanhantes, participar em reuniões de diversas ordens, organizar sessões de cinema indígena, oficinas e passeios na cidade, bem como acompanhar alguns pacientes em consultas, exames e outras intervenções em hospitais e ambulatórios.

Na experiência de muitos pacientes e acompanhantes indígenas, a estadia em São Paulo intensifica a vulnerabilidade inerente ao adoecimento, em que se é habitado por alteridades e seus efeitos transformacionais. A Casai, particularmente, constitui um lugar de incerteza, vulnerabilidade e instabilidade ontológica. Mas, por isso, é também um lugar de experimentação, em que corpos e doenças ganham formas novas, persuasivas e mutáveis. Ali ações e dispositivos biomédicos, xamânicos, organizacionais e outros são mobilizados em processos de tradução mútua, em que o corpo é justamente o lugar da diferença e das conexões possíveis, encarnando a vulnerabilidade e a potência de compor-se com outros.

'Cuidado' e 'humanização' são duas palavras intensamente interseccionadas na literatura de etnologia indígena e, de modo bastante distinto, na literatura antropológica sobre saúde. Nessa fase da pesquisa, o exercício tem sido estabelecer conexões parciais entre esses repertórios como modo de fazer visíveis algumas questões do campo. Em meio a irredutível singularidade de suas experiências, estar sob cuidado dos brancos constitui um ponto convergente entre os indígenas que vêm a São Paulo para tratamento biomédico. Ser alvo de cuidado implica estar sob o olhar – e, portanto, sob a consideração ou a intervenção ou mesmo a captura – de outrem, mas implica também fazer-se visível a ele, mobilizá-lo de modos específicos, fazer com que ele faça. Uma das frentes da pesquisa toma o cuidado como ponto de partida para pensar relações entre pessoas na condição de pacientes (ou acompanhantes, quase sempre parentes) indígenas e profissionais de saúde. Particularmente, como corpos e doenças são feitos, desfeitos ou refeitos, para quem e com quais implicações, mobilizando, em chave stratherniana, políticas de visibilidade.

 

Universidade Federal de São Paulo.

Pesquisa realizada com apoio do CNPq e da Fapesp.

Linha de pesquisa:  Questões Ameríndias Contemporâneas.

Email Institucional
vvaall72@gmail.com