Karen Shiratori

O fitomorfismo Jamamadi (médio Purus, AM): etnologia indígena e vida vegetal

Karen Shiratori 

Partindo dos problemas conceituais postos pela etnografia dedicada aos Jamamadi (Shiratori 2018), povo de língua arawá do médio rio Purus (AM), este projeto de pesquisa versa sobre o seu “fitomorfismo metafísico”, que constitui o registro analógico fundamental da imaginação coletiva deste povo, bem como as suas consequências etnológicas e filosóficas para uma reconceitualização da relação com as plantas. A importância do universo vegetal para o pensamento jamamadi (como também de outros povos arawá) os singulariza dentro da paisagem etnográfica na qual a relação especulativa dominante dos humanos com o ambiente privilegia a fauna antes que a flora. Neste sentido, o projeto 1) pontua e problematiza a ênfase que os estudos recentes sobre as dimensões “animistas” ou “perspectivistas” das cosmologias amazônicas deram ao mundo animal, tanto do ponto de vista prático-etológico (caça, predação) como simbólico-cosmológico (mitologia, ritual) em detrimento de outras formas de vida, notadamente as plantas (restritas aos domínios da consanguinidade e convivialidade). 2) E, através da sistematização da bibliografia especializada, o projeto busca ampliar o seu escopo para além da contribuição restrita ao interflúvio Juruá-Purus em vista de abordar os efeitos teórico-conceituais produzidos com o reposicionamento das plantas sobre as socialidades indígenas de outras regiões etnográficas sul-americanas. Em suma, pelo fato da antropologia jamamadi investir fortemente em esquematismos fitomórficos, fundamentando uma cosmologia onde a vida das plantas e a vida dos humanos se espelham e se entrelaçam em múltiplas dimensões, tal singularidade etnográfica convida a uma reavaliação das imagens produzidas pela etnologia recente a respeito do universo conceitual, estético e ético dos povos amazônicos, em consonância com um interesse renovado de diferentes áreas do saber pelo universo vegetal, em especial, a filosofia.

 

Universidade de São Paulo.

Pesquisa realizada com apoio da Fapesp.

Linha de pesquisa: ​​​​​​​

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